quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Lua de São Jorge



Imagine cantar, como canção de ninar, Lua de São Jorge de Caetano Veloso! É o que Carlos Heitor Cony nos proporciona em sua crônica de mesmo título.

RIO DE JANEIRO - Coisas que acontecem: ia fazer 50 anos, teve um caso por aí, nasceu-lhe um filho. Brigas daqui, brigas de lá, separou-se da mulher, dividiu bens, mas não foi morar com a mãe do garoto. Preferiu continuar sozinho.
Cumpria suas obrigações, pagava contas, mas não queria nada com a mulher que lhe dera um filho à revelia.
Eis que ela teve de se internar, um acidente de carro. O garoto caiu-lhe como um dever, que ele dividiu com uma jovem que se oferecia pelos jornais para cuidar de crianças de pais solitários.
Ele então chegava mais cedo do trabalho para ver a moça adormecer o filho. Ela cantava baixinho, a voz parecia vir do espaço, e não de sua boca. Nada de ""Eu fui no Tororó", nada de bicho-mulundu, boi da cara preta, o repertório gasto que fez dormir todos nós.
A moça cantava ""Lua de São Jorge", a música de que ele mais gostava do Caetano Veloso. Ouça a músicaEvidente que o menino não entendia a letra, mas adormecia no embalo da melodia que vinha mais do espaço do que da carne do mundo.
Ele entendia a letra, amava a música e amava sobretudo o canto da moça, baixinho, soprado no rosto da criança. Ela cantava, em parte para acalentar o guri, em parte para acalentar a si mesma.
Invocava a lua.
Nem era a lua que ela invocava, mas um duende boiando no infinito da noite, o santo-guerreiro que nunca existiu e por isso ficou exilado lá em cima, mancha azul num disco de prata rolando na treva.
A mãe do menino saiu do hospital, veio para casa, pediu de volta o filho. Ele nunca mais ouviu a voz da moça, cantando baixinho a lua soberana, a lua que acalenta o sono das crianças e que acalentava o sono dele.
Sozinho na noite, ele ouve ainda aquela voz macia. O dia amanhece, e a lua de são Jorge nem aparece para iluminar o que restou dele -se é que restou alguma coisa.

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