Embora não haja nada de novo debaixo do sol, há muita criatividade ao dizer o já dito. Este é o objetivo deste blog: revelar formas novas de dizer o que já foi dito.
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Millor Fernandes parodia Manuel Bandeira
Parodiar é brincar com o texto original, modificar a sua essência, criticar as ideias nele veiculadas... enfim... alterar seu sentido original. Veja a criatividade de Millor Fernandes ao retomar Pasárgada de Bandeira:
QUE O MANUEL BANDEIRA ME PERDOE, MAS…VOU-ME EMBORA DE PASÁRGADA”
Vou-me embora de Pasárgada
Sou inimigo do rei
Não tenho nada que quero
Não tenho e nunca terei
Vou-me embora de Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
A existência é tão dura
As elites tão senis
Que Joana, a louca da Espanha
Ainda é mais coerente
Do que os donos do país.
A gente só faz ginástica
Nos velhos trens da central
Se quer comer todo dia
A polícia baixa o pau
E como já estou cansado
Sem esperança num país
Em que tudo nos revolta
Já comprei ida sem volta
Pra outro qualquer lugar
Aqui não quero ficar.
Vou-me embora de Pasárgada.
Pasárgada já não tem nada
Nem mesmo recordação
Nem a fome e a doença
Impedem a concepção
Telefone não telefona
A droga é falsificada
E prostitutas aidéticas
Se fingem de namoradas.
E se hoje acordei alegre
Não pensem que vou ficar
Nosso presente já era
Nosso passado já foi.
Dou boiada pra ir embora
Pra ficar só dou um boi
Sou inimigo do rei
Não tenho nada na vida
Não tenho e nunca terei
Vou-me embora de Pasárgada.
(Millor, no Jornal do Brasil)
Música "Amor pra recomeçar" conversa com o texto "Desejo"
O músico Frejat compôs a música "Amor pra recomeçar" a partir do poema "Desejo" de Victor Hugo.
Ouça a música
Poema
Ouça a música
Poema
Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar ".
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar ".
Rubem Alves retoma "Instantes"
Em seu livro "Se eu pudesse viver minha vida novamente..."
Rubem Alves retoma o texto "Instantes" ora atribuído a Jorge Luis Borges, ora a Nadine Stair para modificá-lo, para contrariar as ideias do texto original. A esse processo de retomada do texto original para contrariá-lo, modificá-lo de alguma forma dá-se o nome de Paródia. Isso fica claro no fragmento "Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto de brincar. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver minha vida novamente, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou."
Acesse e leia mais sobre Rubem Alves
Rubem Alves retoma o texto "Instantes" ora atribuído a Jorge Luis Borges, ora a Nadine Stair para modificá-lo, para contrariar as ideias do texto original. A esse processo de retomada do texto original para contrariá-lo, modificá-lo de alguma forma dá-se o nome de Paródia. Isso fica claro no fragmento "Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto de brincar. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver minha vida novamente, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou."
Acesse e leia mais sobre Rubem Alves
Música "Epitáfio" conversa com o texto "Instantes"
O texto "Instantes", atribuído a Jorge Luis Borges poderia ser utilizado como um "Epitáfio" para aqueles que gostariam de deixar, após a morte, um norte para os vivos, uma forma de viver diferente, mais leve- aproveitando mais cada momento. Essa é a ideia que nos passa a música "Epitáfio" do grupo Titãs.
Ouça a música
INSTANTES,
Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo
(Nota: este poema não é de Jorge Luis Borges)
Ouça a música
INSTANTES,
Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo
(Nota: este poema não é de Jorge Luis Borges)
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Pasárgada e suas variações
Pasárgada é, no poema de Manuel Bandeira, o lugar dos sonhos, o lugar mágico para onde o eu lírico quer ir. Ah! Quem me dera ir também para Pasárgada cada vez que o coração apertar, cada vez que a vida nos solicitar para um cotidiano entediante! A proposta é ler o poema e, a partir dele, criar paráfrases e paródias, brincando com o poema ou levando muito a sério o lugar mágico de Bandeira! Para isso, vamos conhecer o poema:
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
Vou-me embora
pra Pasárgada.
Vou-me
Embora pra Pasárgada
Manuel Bandeira
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra
Pasárgada
Vou-me embora pra
Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu
estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Lua de São Jorge
Imagine cantar, como canção de ninar, Lua de São Jorge de Caetano Veloso! É o que Carlos Heitor Cony nos proporciona em sua crônica de mesmo título.
RIO DE JANEIRO - Coisas que acontecem: ia fazer 50 anos, teve um caso por aí, nasceu-lhe um filho. Brigas daqui, brigas de lá, separou-se da mulher, dividiu bens, mas não foi morar com a mãe do garoto. Preferiu continuar sozinho.
Cumpria suas obrigações, pagava contas, mas não queria nada com a mulher que lhe dera um filho à revelia.
Eis que ela teve de se internar, um acidente de carro. O garoto caiu-lhe como um dever, que ele dividiu com uma jovem que se oferecia pelos jornais para cuidar de crianças de pais solitários.
Ele então chegava mais cedo do trabalho para ver a moça adormecer o filho. Ela cantava baixinho, a voz parecia vir do espaço, e não de sua boca. Nada de ""Eu fui no Tororó", nada de bicho-mulundu, boi da cara preta, o repertório gasto que fez dormir todos nós.
A moça cantava ""Lua de São Jorge", a música de que ele mais gostava do Caetano Veloso. Ouça a músicaEvidente que o menino não entendia a letra, mas adormecia no embalo da melodia que vinha mais do espaço do que da carne do mundo.
Ele entendia a letra, amava a música e amava sobretudo o canto da moça, baixinho, soprado no rosto da criança. Ela cantava, em parte para acalentar o guri, em parte para acalentar a si mesma.
Invocava a lua.
Nem era a lua que ela invocava, mas um duende boiando no infinito da noite, o santo-guerreiro que nunca existiu e por isso ficou exilado lá em cima, mancha azul num disco de prata rolando na treva.
A mãe do menino saiu do hospital, veio para casa, pediu de volta o filho. Ele nunca mais ouviu a voz da moça, cantando baixinho a lua soberana, a lua que acalenta o sono das crianças e que acalentava o sono dele.
Sozinho na noite, ele ouve ainda aquela voz macia. O dia amanhece, e a lua de são Jorge nem aparece para iluminar o que restou dele -se é que restou alguma coisa.
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